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Identidade geográfica

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A Ipanema que conheci, aquela que se confunde à minha personalidade, originada no sentimento de coletividade, de pertencimento a um grupo, desde a adolescência até os primeiros sinais de individualização que marcam o fim da juventude, caracterizava-se pela identidade geográfica - e não cultural,  ao contrário do que ocorre hoje,   ou social, como na geração imediatamente anterior. Não éramos evangélicos, petistas, flamenguistas sequer. E se nem todos éramos surfistas, tínhamos pranchas ou garimpávamos ondas no imperfeito  mar baixo  de Ipanema, compartilhávamos aquela ideologia que, paradoxalmente, sendo única era mais libertária e menos uniforme do que as múltiplas ofertadas agora. Outra aparente contradição, éramos territorialistas, integrávamos a turma do Chaplin, do Bob's, da Camões, da Gorceix, da Cruzada, conforme denominávamo-nos, adotando os nomes das ruas ou lanchonetes onde nos reuníamos, sem contudo desejarmos submeter os alienígenas aos nossos valores pol...

Um rapaz bonito

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A mim não dizia nada, mas os brotos adoravam. Um maciste, como dizia-se ainda. Alto, braços e pernas compridos, peitoral largo, barriga de tanquinho, era o típico vagabundo praieiro, uma espécie que provavelmente ainda existe, mas não igual. Não tinha um centavo e nem ele nem ninguém se importavam com isso, menos ainda as garotas. Feições eu diria grosseiras, cabelo comprido cacheado parafinado, olhos negros, bronzeadíssimo, o dia inteiro de sunga, uma sunga vermelha, não saía da praia, namorando todas.  Vivia com pai, mãe, avós, irmãos, sobrinhos, periquitos e papagaio em um desses apartamentos antigos de Ipanema cujo endereço engana, pois são cortiços do tempo em que o bairro ficava longe da cidade, os ricos habitavam casas, alguns mansões, e os trabalhadores do comércio, ainda não expulsos para o morro do Cantagalo, conseguiam pagar aluguel no asfalto.  Usava drogas como todos na sua geração, ou seja, só fumava maconha, raramente tomava chá de cogumelo ou, quando pintava, u...

Ipanema não mora mais aqui

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  A Ipanema que conheci já não existe, bem como a maioria da minha geração já não a habita. Diversos mudaram-se, espalharam-se não só pela cidade, mas outras metrópoles. Estão por São Paulo, Salvador, Nova York, Londres, Roma, Coimbra, Lisboa, Praga, São Petersburgo, Tóquio, Sidney... As meninas, casadas, mães, avós de cidadãos do antigo Primeiro Mundo que então nos deslumbrava com suas televisões, geladeiras e não sei o que mais abandonadas por antigas nas calçadas. Os meninos, diplomatas, músicos em cafés estrangeiros, advogados de firmas transcontinentais, também pais e avós, não esquecidos de quem foram, pois entre nós Ipanema jamais foi um local para onde não se quisesse voltar, mas um traço da personalidade que se leva consigo e não desaparece com as lembranças. O mundo sempre foi apenas uma das características de quem aqui não só viveu, mas cresceu. Não será desses, porém, que pretendo falar, embora irão ser sempre bem-vindos nessas linhas. Mas sim dos muitos que pelas suas ...